sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O Lago

Eu lembro quando tudo começou. Um pequeno incidente que eu não pudera prever. Andava distraído sem saber para onde ia, mas ia mesmo assim. À minha frente avistei uma pequena poça que julguei ser menor que meu salto e saltei.

Não sei dizer da sensação que eu senti. Nem sei dizer se senti coisa alguma. Foi mais um não-sentir. Como se em um instante não pudesse me recordar da sensação que é o sentir. Como se o mundo tivesse deixado de ser mundo naquela fração de segundo. Talvez um lapso – o mundo se esquece que é mundo – um pequeno lapso. Uma pequena distração e já não somos quem éramos.

Um corpo salta sobre uma poça. O corpo é maior que a poça. Ou será que a poça era maior que o corpo? Ainda não era possível sentir – logo, medir tornara-se impossível; posto que medir é uma forma de sentir. Mas, se a poça é maior que o corpo, a poça já não é mais poça. Mas o corpo ainda é corpo e mergulha em um imenso lago. Submerso, emerge a consciência novamente.

Era o que rezava a lenda. Aquelas estórias antigas que foram passadas através de gerações, de boca em boca, ainda em sociedades ágrafas. Mas como crer que aquilo que vai no papel é o que realmente dançava na boca dos antigos? Ainda que seja belo, parecerá sempre irreal. Sempre parecera irreal. Mas, agora, submerso, a compreensão vem à tona; porém, o corpo, permanece em seu mergulho estático – não como se flutuasse, mas como se fizesse parte daquilo tudo que lhe ronda e circunda; como se aquilo que lhe delimita também fosse aquilo que lhe tornasse maior. Não era como se o líquido ao redor do corpo tocasse o corpo. Era como se fosse o próprio corpo a se tocar.

E o mergulho continua. Quanto mais o corpo cai, mais a consciência aflora. E o corpo já não é corpo. E o corpo já não é lago. O corpo é um rio que corre em direção ao mar e deságua em si mesmo. Depois vem dar à praia, banhando a areia. O corpo é solidão na areia da praia. O corpo é solidão em alto-mar. O corpo é um corpo encharcado. O corpo é um corpo molhado que o Sol não pode secar.

Mas a poça é menor que o corpo e, dessa forma, a poça não é lago nem é difícil de se saltar. E o corpo é apenas corpo – não é lago, nem é mar. O corpo não é solidão à beira-mar. O corpo vence a poça em um salto. O salto dura uma fração de segundo. E em uma fração de segundo muita coisa pode mudar.

É claro, eu devo admitir, que o brilho de seus olhos e a alegria de seu sorriso não deixariam eu me enganar – assim como as palavras que suas mãos me disseram ao me encontrar – mas, foram seus cabelos molhados, sua roupa ensopada, seu corpo encharcado que me fizeram crer sem duvidar:

- Ela também se banhara no lago do amor.

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