sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quando o amor morreu três vezes

A primeira vez que eu vi o amor morrer, eu não sei dizer se a culpa foi minha ou do amor. Creio que de ambos, pois, éramos, à época, igualmente inseguros e principiantes na arte de amar. Assim sendo, eu não dei muita atenção quando eu vi o amor brincar imprudentemente de equilibrar-se sobre a mureta da sacada do edifício. E quando o amor caiu e surdamente gritou por socorro, ainda que eu tenha tentado, não fui capaz de correr ao seu encontro e segurar suas mãos. E pude ver o amor estatelar-se ao solo enquanto dava seu último suspiro, me fazendo sentir como se fosse eu quem morria naquele momento.

Quando eu encontrei o amor novamente, não tinha mais a insegurança daqueles que precisam de apoio para manterem-se de pé. E o amor tão pouco parecia precisar de mim ou de quem quer que fosse. Então fiz pouco do amor que parecia fazer pouco de mim. Dessa forma não dei muita atenção quando vi o amor brincar de equilibrar-se sobre os trilhos do trem como quem não fosse capaz de ouvir a buzina de alerta da locomotiva que se aproximava. Dessa vez havia tempo de salvar o amor e corri ao seu encontro, mas tropecei em minhas próprias pernas e caí a alguns metros do amor, que foi arrastado e despedaçado, me fazendo sentir como se fosse a minha carne que se rasgava por entre as ferragens daquele trem.

Da última vez que eu vi o amor morrer foi quando eu também morri. Feito água que escorre por entre os dedos quando tentamos segurá-la nas mãos, o amor passou por mim. Feito onda que se quebra na pedra, o amor se desfez em frente a mim. Feito daquilo que eu sou, me senti como se não fosse feito de nada quando o amor se desfez de mim.

Por isso me espantei quando ouvi novamente de amor falar. Eu, que vira o amor morrer três vezes, ouvia agora de uma boca embriagada que o amor ainda vivia. Que, às vezes, sim, ele agonizava e até se enfraquecia, mas, morrer, nunca morria.

Então me embriaguei nessas palavras e mergulhei dentro de mim mesmo à procura do amor, sem saber se vivia um sonho ou se delirava febrilmente ao querer reencontrar algo que eu não sabia se ainda existia.

E quando eu reencontrei o amor, foi difícil reconhecê-lo a um primeiro olhar. Estava mais velho e mais cansado, o corpo ferido, o coração alquebrado. Assustou-se quando me aproximei, mas logo me reconheceu e sorriu tristemente. Retribui o mesmo sorriso tímido e lhe ofereci o meu braço. O amor aceitou e voltamos para casa.

Agora o amor está deitado na cama e eu lhe preparo uma canja para lhe aquecer o espírito. Já não está mais cansado, nem parece tão velho. Noite passada relembramos o episódio do trem e rimos gostosamente.

5 comentários:

Fernanda Elisa disse...

Puuuuuxa, Stive! Que bela metáfora!!!

Adorei o texto!
Está entre os meus prediletos seus!

Beijinhos,
Feliz Páscoa

Canela's Blog disse...

Puxa, acho que esse é um dos textos mais lindo que já li, de verdade! Nossos encontros e desencontros só nos mostram que na verdade, amar é algo que aprendemos conforme crescemos e amadurecemos. E assim como crianças, erramos, tropeçamos etc. Parabéns Stive, muito bom o texto, muito bem escrito e suave. Hoje também sinto que encontrei o amor e que suavemente tomamos nossa "canja" relembrando nossas experiências passadas que tanto nos fazem rir. Um abraço!

Josy Poulain disse...

O amor nunca tem culpa, Steve.
Ótimo texto,

;*

Miriam disse...

Talvez algum dia eu pare de me surpreender com suas letras, mas não foi hoje..., abraços. Miriam

Anônimo disse...

Oi Stive que lindo o que escreveu...bj Nilde