quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os Espelhos de Narciso

Fotografias são o mote constante e preferido dos poetas. Há algo de mágico nesta possibilidade de congelar o tempo em forma de imagem. Renato Russo já se utilizou do tema em Vamos fazer um filme, assim como Chrissie Hynde, vocalista do Pretenders, em Back on the chaing gang; em versos inicias tão parecidos que nos fica sempre a dúvida se uma canção não inspirou a outra.

Mas eu queria falar de fotografias sob uma outra perspectiva, não como alguém que encontrasse a foto de um ex-amor e sentisse seu mundo ser levado de volta a algum lugar de seu passado, como na visão de Chrissie; ou ainda apenas um sentimento de incredulidade diante de tudo que não existe mais, de acordo com a visão de Renato.

Quero falar sobre fotografias sob uma visão menos romântica e mais narcisística. Como se fosse possível a Narciso debruçar-se amiúde sobre o rio sem jamais deixar-se cair e se afogar. Será que Narciso ao ver seu reflexo mudar com o tempo, ainda reconheceria, neste reflexo, ele mesmo? Seu amor por si próprio permaneceria intacto mesmo que aquilo que lhe causa este amor continuasse a mudar sempre e sempre?

A gente muda primeiro ao olhar do outro para só então mudarmos ao nosso próprio olhar. E isto se realmente mudarmos. Explico-me: Enquanto o olhar do outro admira-se que aquele garotinho vai tornando-se rapidamente um rapagão, o garoto-quase-rapaz mal se apercebe que o armário de copos está cada dia mais “baixo” e a pia, hoje mais alta com o auxílio de pés maiores, antes só era alcançada com uma cadeira.

Mas é difícil perceber o que muda quando você é aquilo que está mudando. O que conta é sempre o momento presente. Se Narciso, ao olhar-se no rio, permanecesse ali, olhando para si mesmo durante cinqüenta anos, ainda que durante esse tempo ele realmente mudasse, para ele, ele nunca mudaria. Sem o olhar do outro a espantar-se com a mudança de Narciso, Narciso nunca mudaria, ou, ao menos, não perceberia tal mudança.

Mas, imaginemos que Narciso tivesse um álbum de fotografias (o olhar da câmera seria como o olhar do outro), então ele veria que além dele mesmo, ele fôra muitos outros. E Narciso ficaria muito confuso ao perceber que o fato dele ser ele e todos estes outros não encerrasse confusão alguma, porque indiferente ao fato de como mudamos nas fotografias à medida que os anos se passam, penso que esta mudança é apenas um aspecto físico. E ainda que esta mudança física traga junto com ela outras mudanças psíquicas e emocionais, há algo que permanece imutável, inalterado. Além da aparência externa e invisível ao olhar alheio.

Às vezes penso que isto, o imutável, o que sempre permanece, é o que realmente somos. A nossa essência, quiçá nossa alma.

Quando Narciso debruça-se sobre o rio, mais do que a sua aparência refletida nas águas, ele enxerga aquilo que é invisível ao olhar alheio e visível apenas ao seu olhar e, por isso mesmo, o que existe de mais belo neste mundo.

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