Muitas canções já foram escritas sobre esse tema, sobre este desejo de retornar ao aconchego do lar, ou simplesmente à sensação de lar. Lulu Santos, na canção Casa diz: “Eu estou voltando pra casa”. Humberto Gessinger, em Simples de Coração, pede que a outra pessoa retorne e lhe traga junto: “Volta pra casa, me traz na bagagem”. Chris Martin, do Cold Play, desabafa em Clocks que é para seu lar que ele gostaria de ir: “Home, home. Where I wanted to go”.
O título deste post poderia ser livremente traduzido como “Saudade de casa”, porém, numa tradução direta significa algo como: “Doente de lar” ou “Doença (da falta) de lar”. Como se o fato de alguém estar longe de seu lar ou daquilo que lhe traz a sensação de lar fizesse com que ela adoecesse. E o único remédio para a cura deste mal seria o retorno ao lar.
Mas repare que evito referir-me a um lar apenas como se isto fosse uma fortaleza de paredes sólidas que nos protegesse dos ventos e nos abrigasse do sol e da chuva, porque nem sempre um lar é um lugar físico, pode ser apenas uma sensação (ainda que uma sensação sentida por estar em um determinado espaço físico).
Infelizmente, na língua portuguesa, utilizamos indiscriminadamente a palavra casa para designar tanto moradia quanto lar. A palavra lar, propriamente dita, raramente é utilizada. O que não ocorre na língua inglesa onde Home significa lar e House, casa.
Existe um ditado conhecido que diz: “A house is not a home” que significa: “Uma casa não é um lar”. E isto me faz acreditar que tanto Lulu Santos quanto Humberto Gessinger não se referem a uma estrutura de alvenaria e concreto quando expressam o desejo de voltar pra casa. Eles apenas desejam retornar ao lar. Sentem saudade do lar. São pessoas que adoeceram por estarem longe de seu lar. They are homesickness.
Desta mesma forma sente-se o marinheiro que após passar longo tempo em mar aberto, finalmente consegue distinguir no horizonte algo que parece ser o pedaço de uma ilha. Porém, diante do desejo de gritar a plenos pulmões: “Terra à vista”, contém-se, e aguarda um pouco mais até que o tamanho da terra que se avizinha cada vez mais, lhe deixe claro a certeza de que aquilo a sua frente é realmente uma ilha e não alguma ilusão de ótica causada pelo cansaço de um corpo que anseia desesperadamente sentir novamente sob seus pés a sensação de terra firme.
Então, quando a visão da ilha faz-se tão presente a ponto de não ser possível confundi-la com uma miragem, ele enche seus pulmões de ar e grita com todas as suas forças para que todos possam ouvi-lo:
- Terra à vista!
Mas, não há ninguém para receber as boas novas. Sua nau está vazia. Nada além do que ele e seus sonhos estiveram navegando por estes mares. Quando foi que os outros tripulantes abandonaram a embarcação? Não se lembra. Foram embora em um bote ou lançaram-se selvagemente ao mar? Não sabe. Não é capaz de responder e nem tampouco importa-se com estas perguntas, pois, a beleza da ilha aproxima-se mais e mais. E junto com a proximidade desta beleza aproxima-se também um novo tempo, a promessa de um novo mundo para se construir e a se explorar.
E ainda que sem ninguém para ouvir o que ele agora dizia. Da popa (ou seria da proa?) de seu navio grita feliz ao mesmo tempo em que lança seu corpo para fora da embarcação em direção ao mar que se estende na distância cada vez menor entre o seu navio e sua ilha:
- Homem ao mar!
2 comentários:
Gostei muito do testo. Sinto isto - muitas - vezes, embora nunca tenha saído da minha casa "física". Sinto saudade de um lar que era um lugar onde eu sabia ser e estar, que era minha alma...
Enfim. Parabéns.
Lu
Puxa, que bela maneira de se refletir sobre o lar. Tô pensando um bocado ainda... E descobrindo que tenho mais lares do que fugas... haha!
Adorei, Stive!
Beijinhos,
Fê
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