terça-feira, 31 de agosto de 2010

Da arte de escrever ou Momento Bilingue III

Não sei se foi em Ilusões, mas em algum de seus livros, Richard Bach explica como é que o corre o seu processo criativo. Ele diz que quando ele tem uma idéia para escrever, dificilmente a coloca no papel de imediato, ele deixa aquela idéia crescer até que, de tão grande, a idéia já tem vontade própria e então, a idéia, o pega pelos colarinhos e o obriga a colocá-la no papel.

Acho que cada pessoa deve ter seu próprio processo criativo, mas ao menos em uma coisa eu me assemelho a Richard Bach. Quando eu tenho alguma idéia para escrever, não corro ao papel para escrevê-la. Fico ruminando a idéia por dias, às vezes semanas, até que chega um momento em que a coisa está mais ou menos clara em minha cabeça e, aí sim, vou ao papel (atualmente ao computador).

Às vezes esse processo todo acontece em apenas um dia, mas passa, necessariamente, por todas estas etapas. A idéia vem, ela é pensada e repensada algumas vezes até que toma a forma de algo que mereça ser escrito. Mas, no meu caso, tem ainda mais um porém, um fator de desaceleração: Após escrever alguma coisa, tenho por hábito deixar o escrito de lado por pelo menos um dia. Explico-me: À luz da criação qualquer coisa pode parecer boa. A prova de fogo dar-se-á depois. Se após um dia, uma semana ou mesmo um mês, aquilo que foi escrito ainda parecer bom, então é provável que seja realmente bom. Do contrário, a obra não valeria a queda da árvore.

A questão é que ultimamente, devido a um maior conhecimento e posterior entendimento deste idioma bretão, tenho ruminado algumas idéias em inglês e, às vezes, a obra vem nesta língua. E sempre que escrevo algo em inglês, tenho a necessidade de traduzir isto para o português, principalmente porque a maioria das pessoas não entenderia o que está escrito.

Mas quando você tenta traduzir alguma coisa que você mesmo escreveu para um outro idioma, você compreende uma coisa importante: É impossível traduzir alguma coisa para outro idioma. Ao menos não exatamente. O máximo que se faz é criar uma versão que passe a mesma idéia, mas o impacto da idéia inicial fica meio perdido, como se o texto perdesse um pouco da força.

O texto que segue-se a esta introdução nasceu em inglês, mas depois o traduzi ao português, porém, é como se eu tivesse criado um outro texto e não apenas traduzido o primeiro. É estranho, mas é assim:


THAT

It’s not because our bodies fit each other so well;
No, it’s more than that.

It’s not because I don’t need to bend my self to kiss her or because she almost doesn’t need to raise herself to reach my lips;
No, it’s more than that.

It’s not because her smile seems to spread some kind of light all over the world making me feel like everything make sense;
No, it’s more than that.

It’s not because she always said the right thing and always did what I expected her to do;
No, it’s really not that.

She’s the unpredictable thing;
Always acting the way I didn’t expect her to act;
Always saying the things I would prefer not to hear;
Always amazing me and delighting me in a strange way;
What’s that?

Sometimes I wish I were a believer;
Just to believe that she’s really the one;
And anything but that would really matter at all.


ISSO

Não é porque nossos corpos se encaixam perfeitamente um no outro;
Não, é mais do que isso.

Não é porque eu não preciso me curvar para beijá-la e nem porque ela quase não precisa esticar-se para alcançar meus lábios;
Não, é mais do que isso.

Não é porque o sorriso dela parece lançar algum tipo de luz sobre todo o mundo me fazendo sentir como se tudo fizesse sentido;
Não, é mais do que isso.

Não é porque ela sempre diga a coisa certa e sempre faça o que eu espero que ela faça;
Não, realmente não é isso.

Ela é a imprevisibilidade personificada;
Sempre agindo de um jeito que eu não espero que ela aja;
Sempre dizendo as coisas que eu preferiria não ouvir;
Sempre me espantando e me maravilhando de uma forma estranha;
O que é isso?

Às vezes, eu queria ser aquele em que tudo acredita;
Só para poder acreditar que ela é a única;
E nada, além disso, iria realmente importar.

1 comentários:

Fernanda Elisa disse...

Olá, Stive!

Concordo com vc sobre os dois fatos: de uma tradução nunca ter o mesmo significado do seu texto de origem e de o tempo (o santo remédio) mostrar para a gente se o que criamos é bom mesmo. Para um artista que tem intenções de fazer crecer sua arte, acho importante ter conhecimento do que vc falou. ´
Maaas, às vezes, o texto não é o mais importante para quem escreve. Eu, por exemplo, muitas vezes uso a escrita como um alívio. As palavras limpam a minha alma e eu preciso dizê-las mesmo que elas soem como um palavrão. Sei que com esse despejar de mim no papel, muita coisa não fique boa vista pelos olhos da arte, mas pelo olhar da alma tudo tem um siginificado mágico. Acredito nisso!

Adorei o texto. E, pelo pouco que sei de inglês, consegui pegar um pouco da profundidade do original.
Lindo!

Beijinhos,