domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sobre Tempestades

Abriu a janela com cuidado e, com temor, olhou para fora. E viu. Viu coisas que já não via há muito e das quais já quase não guardava lembranças. E percebeu que já não chovia. Na verdade, constatou que já não chovia, pois, perceber, percebera antes de abrir a janela; do contrário, não se atreveria a tanto.

Fechara a janela quando havia começado a chover. Ato contínuo: chuva significava janelas fechadas. Mas elas iam e vinham, demoravam-se por vezes. Iam-se embora tão rápido quanto chegavam por outras vezes. A janela fechava-se e abria-se com o vai-e-vem das chuvas tal qual um diafragma a se contrair e distender a cada inspiração e expiração. E de uma certa forma era como se esta janela, este pseudodiafragma, trouxesse vida para dentro da casa cada vez que mais uma chuva se extinguia.

Havia períodos de estiagem em que a janela nunca se fechava e ficava assim, aberta pro mundo feito cartão postal que empresta beleza aos olhos de quem o observa. Havia ruas largas ladeadas por calçadas arborizadas. Havia uma praça e um campo de futebol. Arranha-céus tentando disputar quem poderia ser a nova torre de babel. Homens, mulheres e crianças. Pelos lares, pelos bares, nos coletivos ou a sós esperando o sinal abrir. E muitos sorrisos. Porque a ausência da chuva sempre trazia sorrisos.

Parecia uma chuva como tantas outras. Não se preocupou além de fechar a janela como sempre fazia. Deitou-se em frente à televisão e abriu um livro, ligou o rádio e procurou alguma coisa para comer. Algo doce, preferencialmente. E esperou e esperou e continuou a esperar. Quando se cansou de esperar foi até a janela, mas não a abriu porque ainda chovia.

Olhava para a janela, mas não através da janela e por conta disto não conseguia visualizar seu cartão postal. Sentia falta das imagens. Sentia falta da beleza. Queria poder abrir a janela e verificar se todas as coisas belas ainda estavam lá. Se realmente havia sorrisos na chuva como um dia ouvira em uma bela canção. Mas seus braços perdiam toda força quando chovia e, mesmo se tentasse, não conseguiria abrir a janela.

Apesar de cansado de esperar já não podia fazer outra coisa que não fosse continuar a esperar. E esperou e esperou e continuou a esperar. Desta feita não se cansara, acostumara-se à espera. O barulho da chuva em seu telhado tornara-se a trilha sonora de sua vida. Ao menos era mais fácil cair-se ao sono.

Quando acordou não ouvia nada. Estranhou o silêncio repentino, mas logo compreendeu. Já não chovia mais. Um sorriso triste formou-se em seus lábios. Foi até a janela, abriu-a. Com cautela, olhou para fora. Seu cartão postal estava molhado e, tirante as arvores, os arranha-céus e as casas, não se via mais nada lá fora.

Saiu de casa e foi à rua, talvez a procurar por alguém, talvez por alguma coisa, mas não saberia dizer o que realmente estava fazendo. E desatou a andar pelas ruas, a esmo. Parecia haver muito mais árvores do que antes e muito menos arranha-céus. Seus pés começaram a apertar-se em seus sapatos, então retirou-os e começou a caminhar descalço. Sensação boa. Seus pés tocavam o asfalto macio. Seu cérebro registrou a estranheza daquela sensação, mas não importou-se. Sabia que as ruas eram de asfalto, mas sentia como se estivesse caminhando por uma estrada de terra depois da tempestade, com o barro molhado entrando por entre os dedos.

Percebeu que já não havia mais prédios nem casas ao seu redor. Tudo era árvores. As calçadas se transformaram em pequenos caminhos gramados. As casas viraram árvores frutíferas. Os arranha-céus, árvores frondosas. O asfalto era terra molhada que agora já não entrava no vão dos dedos de seus pés, pois, já não tinha pés. Seus membros inferiores eram raízes que tentavam cada vez mais e mais adentrar dentro do solo. Sentia dificuldade em locomover-se. Seus braços transformaram-se em muitos galhos que lançavam-se ao alto como a procurar onde o sol estaria. A fotossíntese tornava-se uma necessidade. Percebeu que não tinha mais costelas e sim anéis de crescimento em seu tronco. E tinha um grande tronco.

Era agora uma grande árvore em uma grande e extensa floresta. Não era nada, mas fazia parte de um todo muito maior.

Poderia o fim ser menos romântico?

3 comentários:

Josy disse...

Não é muito fácil falar sobre essas 'tempestades' Stive.
Texto muito bom.

Ah, e o Stieg é muito fera. Boa leitura.

Hugs.

Lélia Campos disse...

Que lindo texto!!! Estava com saudade daqui!!! Bj

Josy disse...

Stive cara, quanto tempo...
Que esse seu sumiço não seja falta de inspiração. E se for, que ela volte logo.

Saudades daqui.