Olhava os carros que iam e vinham, mas não movia músculo algum de seu corpo com exceção de seus olhos que, num misto de felicidade e apreensão, acompanhava o movimento dos carros.
Parado, assim, feito estátua viva, muito assemelhava-se a sua mãe, que era capaz de ficar minutos imóvel até que uma ordem de comando a tirava de seu transe e em questão de segundos, qualquer que fosse seu alvo, seria encontrado, dominado e paralisado; senão pelo medo que ela mesmo pudesse causar, certamente pela pressão de sua mandíbula a quebrar ossos frágeis.
Mas não nos deixemos levar pelas aparências. Bob tem o porte físico de sua mãe, mas traz consigo o espírito aventureiro e brincalhão de seu pai.
Há muito tempo atrás Bob costumava correr atrás dos carros por estas mesmas ruas. A respiração ofegante, a língua de fora, o coração disparado; não havia uma só roda neste mundo que ele não fosse capaz de acompanhar por alguns instantes. Dia após dia, ele nunca se cansava.
Bob não poderia ter pedido vida melhor. Tinha os carros a perseguir, tinha crianças sempre a sorrir e a brincar com ele. Na fonte da praça havia água suficiente para matar a sua sede. E nunca faltava quem lhe trouxesse um pouco de comida. Bob era a alegria daquele lugar e aquele lugar era a sua alegria.
Até que um dia aconteceu. E como isto aconteceu ninguém sabe explicar. Nem mesmo quem estava lá e pôde ver. Foi estranho. Talvez Bob tenha corrido mais do que a roda. Talvez o motorista tenha, num momento de sadismo incontrolável, reduzido a velocidade do carro rapidamente para logo em seguida voltar a acelerar como antes. O que se sabe é que a roda pegou Bob, segurou suas patas fortes (que no momento pareceram bastante frágeis, pois, partiram-se feito vidro quando cai ao chão) e passou por cima delas.
Dizem que Bob não gritou. Nenhum uivo, nenhum ganido. A dor deve ter sido tão forte que nem conseguiu uivar, deve ter desmaiado; ponderou um dos transeuntes que correu para acudir. Mas Bob não havia desmaiado, estava acordado. Os ossos de sua pata estavam partidos em pelo menos três lugares, da pele rasgada escorria seu sangue, mas essa dor era pequena se comparada a outra dor que estava sentindo. Sentia-se traído. Como é que aquela roda pudera fazer isto com ele? Eram amigos, não eram? Há quanto tempo divertiam-se assim? Por que, agora, a roda decidira que a brincadeira deveria ter um fim?
Acho que foi muita dor para um só cachorro suportar.
Desfaleceu.
Levou um tempo para que Bob fosse capaz de novamente aproximar-se dos carros que iam e vinham. Muito mais tempo do que levou para que os ossos de sua pata cicatrizassem, denunciando então que agora ele tinha uma perna menor que a outra, o que, ao menos a principio, dificultou sua locomoção e porte. Mas Bob logo acostumou-se com esta diferença. Ele apenas não conseguia acostumar-se com a sensação de pavor que o barulho dos carros agora lhe causavam. Mesmo quando uma criança, inocentemente, passava perto dele imitando o barulho de um carro com a boca, seus pêlos se eriçavam e era com se sentisse novamente o peso daquela roda a passar por cima de sua pata. Porém, com o tempo acostumou-se também com a brincadeira das crianças a imitarem o barulho dos carros e, apesar da dor que ainda sentia, sentiu vontade de ver os carros novamente. Demorou até que ele pudesse chegar até a calçada. Primeiro, de perto da fonte que tornou-se o seu refúgio após o acidente, observava os carros com temeridade. Depois foi aproximando-se mais e mais até chegar onde está. O corpo paralisado não consegue se mexer devido à lembrança da dor passada, mas seus olhos deleitam-se com a visão daquilo que sempre lhe causou grande alegria.
Bob sustenta-se sobre suas quatro patas e com passos lentos e claudicantes dirigi-se em direção à fonte da praça, dando as costas aos carros. A pata, apesar de estar menor do que antes, já não dói mais, mas ainda existem outras feridas que precisam cicratizar.
É, ainda leva mais um tempo até que Bob possa novamente correr atrás dos carros.
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