segunda-feira, 20 de julho de 2009

Rumor

Havia um rumor.
Ela voltaria.

Mas, Deus meu, pensou consigo mesmo e perguntou-se retóricamente: O que fazer? A despeito deste rumor ser ou não ser verdade, uma coisa era certa: Se ela voltasse, ah, ela não iria gostar nenhum pouco daquela bagunça que a vida dele se tornara, desta casa mal arrumada com aspecto de abandonada, da comida semi-pronta e congelada no freezer, das ervas daninhas tomando conta do jardim, do piano desafinado e abandonado ao canto como se fosse apenas mais um móvel qualquer a servir de apoio para um vaso de flores artificiais; os violões sem cordas, o pandeiro com o couro rasgado, a pandeirola já sem pratinela alguma, a viola com o braço empenado e sem algumas tarraxas.

O que fazer?

Por ordem em tudo, é claro que é isto o que deve ser feito, disse para consigo mesmo em seu monólogo interno. Mas, e se ela não voltar?, questinou-se desgostosamente. A verdade é que já sentia-se cansado por antecipação só de pensar em pôr ordem a todas as coisas. Maldito rumor, antes não tivesse ouvido nada. Antes pudesse não acreditar. Mas pensa nela voltando e encontrando tudo como está. Pensa no sorriso triste de quem já parecia saber de antemão toda a miséria que encontraria. Pensa nas mãos dela a percorrer o piano desafinado sem encontrar uma só nota afinada. Pensa no olhar desolado a pousar sobre os violões e a viola, que já de tão tristes e alquebrados nem se preocuparão em procurar pelos pandeiros. E talvez, cansada da falta de beleza no interior da casa, busque conforto no jardim sem conseguir encontrar...

Não há nada o que pensar, pensou consigo mesmo, só o que fazer, e deitou-se a fazer o que cria que deveria ser feito.

Primeiro, uma lista para o supermercado e tratar de trazer a esta casa comida de verdade e não apenas coisas que se pareçam com comida. Depois procurar o telefone do afinador de piano e do luthier para dar um jeito na viola. Couro e pratinelas para os pandeiros. Cordas para os violões. Dar jeito no jardim e comprar novas plantas, algumas flores para alegrar o interior da casa. Revirar os livros de receitas e voltar a pilotar forno e fogão como antes. Chamar alguns amigos para almoços descontraídos. Depois da comilança, muita música. Violão, viola, piano e pandeiro. Afinado, no tom e no ritmo. O vozeirão a tomar conta da casa novamente. Casais dançando ao som da música. Palmas marcando o ritmo. E o ambiente respira felicidade, emana alegria.

Era apenas um rumor.
Ela não voltou.

Mas não pôde conter um pensamento, observando a si mesmo e às pessoas ao seu redor: Tudo estava tão mais bonito.

Permitiu-se um sorriso sincero.

3 comentários:

Josy disse...

Então...

Obrigada pela visita, é sempre bom encontrar mais um amante das letras;
Adorei o texto, espero a continuação...

Abraço.

Fernanda Elisa disse...

Toda vez que passo por aqui, penso em parar de escrever.

Vc quer me fazer não mais escrever nada no meu blog, é isso?

Tenho que evitar passar por aqui...

haha
Abraço, Stive!

andrea disse...

sinto que estás cada vez melhor. Gostei mesmo!
bjos!!