Nunca havia escrito nenhum conto. Minha produção literária àquela época (se é que posso chamar de literatura o que eu escrevia àquela época) era apenas de poesias e um ou outro esboço do que mais tarde tornaria-se música. Mas resolvi lançar-me a esta empreitada e fiz o conto que reproduzo aqui.
Apesar de tê-lo escrito a quase treze anos, a uma primeira releitura até que fiquei satisfeito com o resultado apesar de sentir muito clara a influência da música "Dezesseis" da Legião Urbana, lançada no ano em questão no álbum A Tempestade.
O que hoje, pelo distanciamento, me intriga e que na época não atinei foi por que alguém iria à uma aula de química analítica falar sobre um concurso literário, pois, tirante a mim, que ali era um estranho em lugar estranho, não creio que mais ninguém tenha levado a sério esta idéia bizarra de escrever um conto.
Em tempo: Enviei o conto ao concurso e, para isso, tive que datilografar três folhas em espaço dois e com tabulação (Ah! Como eu adoro a evolução da tecnologia!!!), mas nunca me preocupei em saber o resultado. Passado um tempo, recebi de volta meu original. Havia nele um nome e um telefone escrito à mão, porém, nunca liguei para saber se alguém havia ou não gostado do conto. Acho que estava suficientemente satisfeito apenas por ter escrito um conto, não precisava de nada mais. Ao menos, não àquela época.
O dia em que lhe conheci já foge da memória alquebrada deste pobre idoso. Três grandes anos de uma vida interrompidos por um capricho do destino. Mas, não há de ser nada, em outra vida hei de encontrar-lhe novamente.
Gabriel e eu éramos grandes amigos e, se assim ele me permite dizer, ainda somos grandes amigos. Todos cantam as glórias do amor e sua pseudoeternidade e esquecem-se do maior dom que Deus nos deu: A Amizade. O amor em sua verdadeira platônicidade, praticamente inabalável. Perfeita, por assim se dizer.
Nenhum poeta jamais disse isto, mas eu digo agora: para abalar um amor só mesmo um amor muito mais forte. Sim, verdade. Um amor verdadeiro não se deixa abalar por coisas vãs. E eu digo isto com toda sinceridade, pois, amava Gabriel e sei que ele também me amava. Um amor de irmão. Fraterno, paternal. Da melhor forma que um platônico poeta pudesse querer.
Talvez você, leitor, ao ler estas linhas, não possa perceber as lágrimas que correm agora por esta face. Pois, se você ama, deve compreender o sofrimento de estar longe de quem se ama. Dói no coração, mas, antes doesse só no coração. Dói na alma. Porque quando amamos de verdade, não amamos mais com o coração e sim com a alma. Logo, qualquer dor é sentida na alma e, acredite, na alma dói muito mais...
A minha maior lembrança de Gabriel era quando o via envolto em suas teorias sobre o mundo e sobre as pessoas. Seus olhos brilhavam a cada palavra dita e a turma se fascinava com a sua inteligência. Dizia que queria ser um psicólogo. E, em verdade, ele entendia muito de psicologia, apesar de nunca ter estudado verdadeiramente sobre o assunto; por "verdadeiramente" entenda-se frequentar uma faculdade, porque apesar de não frequentar nenhuma faculdade tinha sempre consigo um livro sobre psicologia. Entendia muito sobre as pessoas e era até capaz de perceber o que sentiam. Mas, como todo dom divino, a sabedoria é uma faca de dois gumes, pois, cada vez que ele mais entendia dos outros, menos entendia de si mesmo.
A minha maior dor ao falar de Gabriel é perceber que os verbos estão todos no passado. O passado, uma época em que todos os verbos estavam no futuro. Quando paro para pensar na vida me entristeço deveras, pois, percebo que nunca vivi o presente. No meu passado vivia o futuro, apenas pensando no futuro, sonhando com uma vida melhor. Agora que já estou no futuro, vivo em lembranças do passado. De tudo o que aconteceu. Nossa vida se resume ao futuro e ao passado, nesta ordem, e o presente fica esquecido. Nunca o vivemos.
Lembro-me de Damaris, ela parecia um anjo que veio dos céus para ajudar meu amigo, mas, se revelaria um lobo em peles de cordeiro...
Foi no final do verão de setenta e seis que a conheci. E é no começo deste saudoso verão onde minhas lembranças são mais nítidas. Ainda posso ouvir Gabriel me dizendo que estava apaixonado, aliás, ele me dizia bem mais que isso, ele me dizia que estava amando. Seus olhos brilhavam bem mais do que quando desfiava suas teorias para um parco público de suas seis pessoas, mas , um público interessado. Dizia-me que eu precisava conhecer Damaris. "Ela é um anjo dos céus que os deuses mandaram para alegrar a minha vida". E em meio a tanta alegria fui conhecer este anjo. Oh! Deus! Às vezes me culpo, penso até em me matar. Congelar a imagem para sempre numa forma de rebeldia. Mas eu sei que não tenho este direito, porque, acima de tudo, esta não fora a minha intenção. Como eu disse, apenas um amor muito mais forte pode abalar outro amor. Não sei como aconteceu, não tive escolha. Amor à primeira vista, diriam os poetas. Mas não foi minha intenção, sei que não foi...
Recebi em minha casa, tempos depois, uma carta. Fazia alguns dias que não via Gabriel e Damaris não saía de meus pensamentos. A carta era de Gabriel, abri-a e me assustei com as primeiras palavras: "Certamente, quando estiveres a ler esta carta, estarei longe, em outro mundo, onde a felicidade não seja algo tão necessário e tão primário..." Lembrei-me da conversa que tive com Damaris tempos atrás, ela disse que também me amava, mas eu disse que não podíamos, que isto seria uma traição a Gabriel. E agora ele citava isto na carta: "...Damaris me disse que lhe ama e que você a ama também. Sabe, você pode me chamar de fraco, se quiser, mas quem nunca tomou chuva assusta-se ao primeiro prenúncio de tempestade(...)Sei que não sou capaz de suportar tal dor". Lágrimas corriam por minha face, sentia vontade de correr, mas, sabia que já não havia tempo. O pior já deveria ter acontecido...
A notícia não tardou a chegar em casa. Diziam que foi um acidente. "Ele perdeu o controle do carro" "Entrou na contra-mão" "O caminhão era enorme!" Todos lamentavam o triste acontecimento, o pseudoacidente. Alguns diziam: "Assim quis Deus e não podemos nos opor à sua vontade". Mas, eu sabia a verdade, eu sabia que assim quisera Gabriel, assim quisera um coração partido...
Neste momento releio a sua carta e a tristeza aumenta: "Quero que você seja feliz, já que eu não sou capaz de sê-lo. A morte parecerá um acidente, um descuido meu. Mas você saberá a verdade. Guardo contigo este segredo. E, como já disse o Poeta: "A lua está de volta ao seu lugar; quem perguntar, diga que está tudo bem...""
E ainda hoje numa roda de amigos, quando vem à tona o seu nome, logo apontam para mim e dizem que éramos grandes amigos. Eu me permito uma certa alegria, fecho os olhos e seguro a dor, enxugo a lágrima e digo:
- Éramos apenas bons amigos.
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