quinta-feira, 2 de abril de 2009

Coração de pedra

De onde estou posso vê-lo sentado em uma cadeira, seu olhar tímido e inseguro percorre o ambiente e pára por alguns segundos no homem que está à sua frente, mas não se mantém ali por muito tempo, volta a percorrer todo o consultório. Sim, ele está em um consultório, logo o homem à sua frente é um médico, o que certamente explicaria o seu jaleco branco e a estante cheia de livros relativos à medicina ao fundo da sala. Mas, seu olhar percorre novamente a sala, contudo, a mim parece que o que o faz levar os olhos assim pela sala, como a procurar por algo é apenas o receio de encarar a pessoa à sua frente.
O médico olha para ele com seriedade e segurança. Parece até que é o seu antônimo que ali está a olhar para ele mesmo. Ele olha para o médico, apenas durante o tempo necessário para ouvir o que ele pergunta.

- Você tem certeza que você realmente quer fazer isto?

Seu olhar foge do olhar do médico e tenta buscar refúgio em algum lugar da saleta, mas para a meio caminho, mais precisamente na mesa do médico, seu olhar encontra refúgio na reprodução de um coração e, quando eu digo coração é preciso deixar claro que me refiro a um coração de verdade, com átrios, ventrículos, artérias e veias; bem longe daquela imagem romântica que povoam os presentes e os cartões no décimo segundo dia do mês de junho.
O que me espanta a respeito deste coração é o material do qual ele é feito: é um coração de pedra. Porém, apesar disto me causar estranheza, não vejo o mesmo sentimento nos olhos dele. Parece-me que esta reprodução de um coração de pedra lhe emprestou além de refúgio, conforto. E considero pouco provável que daqui para frente seu olhar se lance em alguma outra direção que não este coração.

- Veja bem, continuou o médico, não é que eu realmente me importe, mas isto é parte do protocolo, preciso lhe fazer uma bateria de perguntas antes de lhe encaminhar para esta cirurgia.

O coração poderia ser descrito como uma obra de arte, totalmente esculpido em pedra em seus mínimos detalhes, cada artéria, cada veia extrapolando as possibilidades da perfeição.

- Não há motivos para pré-ocupações com a cirurgia, nós já dominamos esta tecnologia há muito tempo e você corre muito mais risco de morrer deitado na sua cama em sua casa do que em nossa mesa de operações, disse o médico, sem disfarçar sua falta de modéstia.

Ele pegou o coração em sua mão e começou a examiná-lo.

- Mas o problema é que existe este protocolo, continuou o médico, num tom de voz que não deixava muito claro se ele gostava ou não de ter que seguir este protocolo.

Ele colocou o coração de novo sobre a mesa.

- E, de acordo com este protocolo, eu preciso deixar bem claro para você que apesar desta cirurgia ser 100% segura ela não pode ser revertida.
- Então... isto é pra sempre?
- Sim, para sempre, mas não se preocupe, de todas as pessoas que já fizeram esta cirurgia, nenhuma se arrependeu. Veja só: eu mesmo já fiz, e estou muito bem, e mesmo que isto fosse reversível, eu é que não iria querer revertê-la...

Ele olhou para o médico, depois para o coração e perguntou, assustado, apontando para o coração:

- Você tem um desses?
- Sim, tenho, respondeu o médico sem muita emoção, eu fui o primeiro a receber um desses e você será o ... hummm, difícil precisar com exatidão, mas já estamos por volta do décimo milhar... e esse número só tende a aumentar.

(...)

- Esse vai ser o meu?
- Não, não esse, disse o médico pegando o coração de pedra, este é só um mostruário, o seu já foi encomendado, estará pronto em três dias.

(..)

- Mas voltemos ao protocolo, preciso lhe fazer algumas perguntas.

- Você tem certeza que você quer trocar o seu coração por um coração de pedra.
- Sim, tenho certeza.
- Você está ciente que esta operação não pode ser revertida?
- Sim, estou ciente.
- Você sabe que pedra não sente?
- Sim, eu sei... e é por isso mesmo que eu quero um coração de pedra...

(...)

- Eu não quero mais sentir...

O médico levantou-se e estendeu a mão para ele. Parabéns, terminamos o protocolo, nos veremos novamente na data da cirurgia. Ele estendeu a mão para o médico, retribuiu o comprimento e disse:

-Até a cirurgia...

(...)

Depois que ele saiu, o médico pegou a ficha dele e guardou no arquivo e perguntou a si mesmo, como quem não espera resposta alguma:

- Não sei porque ainda continuamos seguindo este protocolo, todos eles respondem exatamente a mesma coisa.

3 comentários:

Fernanda Elisa disse...

Esse conto é simplesmente fantástico! Um dos que vou salvar aqui no meu PC, tudo bem? Com os devidos créditos, é claro!

Olha só que interessante...
Ando lendo Florbela Espanca (conhece?) e ela tem um poema chamado "Visões de Febre", que contém esse trecho aqui:

"Eu chamo-me Saudade,
E venho pra levar-te o coração doente!

Não sofrerás mais; serás fria como o gelo;
Neste mundo de infâmia o que é que importa sê-lo
Nunca tu chorarás por tudo mais que vejas!

E abriu-me o meu seio; tirou-me o coração
Despedaçado já sem 'ma palpitação..."

Gostou?
Estabelece uma baita relação de significados com seu texto.

Adorei!

Stive Ferreira disse...

Olá, moça. Que bom que gostou, sinta-se à vontade para guardar uma cópia dele para ti.

Olha, de Florbela Espanca só conhecia aquele poema que o Fagner musicou:
"Minh'alma de sonhar-te anda perdida;
Meus olhos andam cegos de te ver;
Não és sequer a razão de meu viver;
Pois, que tu és já toda a minha vida..."

Mas, gostei deste poema também, tem um nome forte e uma relação ainda mais forte com meu conto (apesar que o correto seria dizer que o meu conto tem uma relação forte com este poema, hehehe...)

É isso...
Beijos.

Lélia Campos disse...

Stive, que lindo!!! Como você escreve bem, talvez eu já tenha falado isso em algum outro comentario, mas não custa reforçar! Forte e agudo, vai direto ao ponto e causa estardalhaço! Simplesmente genial!!! Parabéns!!!

Por que, apesar de tudo, ainda preferimos nosso coração mole, hein???