sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Por entre nuvens e strelas

Eram felizes. Costumavam ficar deitados sobre a relva, os corpos próximos, os olhos na direção do céu, a observar as formas das nuvens e os desenhos que formavam as estrelas. Costumavam ser felizes.

Parecia que tudo aquilo lhes bastava. As nuvens, as estrelas e todos os desenhos e formas que se escondiam por entre elas. Mas não bastava, ao menos não bastava para ele, não totalmente. É verdade que ele gostava daquilo tudo, da relva, das estrelas e das nuvens, de seus corpos próximos. Não queria que aquilo acabasse. Nunca quis, nunca pensara que pudesse acabar. Aquilo tudo era bom e lhe fazia sentir-se completo.

Mas um dia percebera que apesar daquilo ser bom não era completo. Vira um filme na televisão. Faziam o que eles faziam, mas de uma forma diferente. Na televisão eles também costumavam deitar-se sobre a relva, também olhavam para o céu e se perdiam por entre desenhos de nuvens e estrelas. A diferença é que na televisão faziam isto despidos de qualquer tipo de roupa ou pudor. Então ele quis fazer como vira na televisão, mas sentira um pouco de medo, uma espécie de temor. O que ela diria? O que ela pensaria? Será que ela aceitaria? Seria aquilo certo? No filme não era. Foram repreendidos. Separados. Nunca mais se viram. Queria fazer da forma como vira na televisão, mas tinha medo. Será que também nunca mais a veria depois disso? Não queria ter que nunca mais vê-la. Queria ter as duas coisas. Queria poder deitar sobre a relva ao lado dela, os corpos nus, as nuvens e estrelas no céu como um imenso quadro-negro onde escreveriam sua história por entre desenhos e formas. E queria que isto durasse mais e não apenas um dia como vira no filme.

Então nada falara e, assim, continuara com sua doce rotina (relva, nuvens e estrelas) até que um dia ela se foi. Disse que não podia mais deitar-se com ele sobre a relva a observar os desenhos que se escondem por entre nuvens e estrelas. Sim, ela se foi. Disse que vira um filme, que a vida era mais do que aquilo que eles faziam. Disse que aquilo que eles faziam não era ruim, era bom e ela gostava, mas sabia existir mais coisas que ele não estava disposto a descobrir, mas que ela estava. Disse adeus e se foi.

Nos dias que se passaram ele continuou com sua rotina, porém, agora, só. Deitava-se sobre a relva e observava os desenhos e as formas que se escondiam por entre nuvens e estrelas. Mas, logo, tudo aquilo perdeu um pouco do brilho, da graça e da beleza. Sem alguém do seu lado parecia que todas aquelas coisas que antes tiveram tanta significância, já não significavam mais nada. Logo, deixara de deitar-se sobre a relva e parou de procurar qualquer sentido por entre os desenhos e formas que, anteriormente, só lhe faziam sentir-se bem e completo. Porém, percebeu que o fato de não mais deitar-se sobre a relva também não lhe fazia sentir-se mais feliz. Ao contrário, descobriu-se mais triste do que antes. Sentiu-se confuso, não soube o que fazer. E, após errar pelos dias durante algumas semanas, finalmente tivera coragem, despira-se de suas roupas, de seus pudores e de seus medos e fora novamente deitar-se sobre a relva.

Sentia-se feliz. Sem medos e sem pudores e, ainda que sozinho, consciente de todos os desenhos e formas que se escondem por entre nuvens e estrelas. Era feliz.

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